Três histórias para escolher o próprio medo

Três histórias para escolher o próprio medo

O uivo no sal

Ficção. Quando a seca revelou o leito branco da represa, Lia encontrou pegadas enormes seguindo até a antiga estrada. Naquela noite, ouviu um uivo do lado de fora da casa. O pai, que jurava não acreditar em lobisomens, trancou as portas e apagou as luzes. Lia espiou pela fresta da janela: uma forma curvada farejava o chão, usando o velho casaco do pai. Então, atrás dela, veio outro uivo — dentro de casa. O pai segurou seu ombro e sussurrou: “Não abra.” Mas a voz que respondeu do corredor era a de Lia: “Pai, já estou aqui.”

A última chama

Ficção. No vilarejo, diziam que a bruxa morava no forno abandonado e roubava o calor de quem passava. Miguel foi até lá numa noite gelada, decidido a provar que era só uma história. Encontrou uma mulher junto a uma chama azul, alimentada por cartas antigas. Ela não levantou os olhos. “Pode levar o fogo”, disse. Miguel estendeu as mãos. A chama apagou, e a mulher desapareceu. Ao voltar, viu fumaça saindo de sua casa. No bolso, uma carta ainda ardia: tinha o nome de sua mãe.

O passageiro das três

Ficção. Toda madrugada, às três em ponto, um ônibus vazio parava diante do cemitério. Numa noite de chuva, Joana entrou para escapar do temporal. O motorista não tinha rosto, apenas um espelho no lugar da cabeça. “Para onde?”, perguntou. Ela disse o endereço de casa. O ônibus seguiu por ruas que Joana nunca vira, até parar diante de um portão coberto de hera. Do outro lado, sua avó acenava, embora tivesse morrido quando Joana era criança. Ela desceu. O ônibus partiu sem ruído. No dia seguinte, encontraram o veículo abandonado. No vidro embaçado, uma única frase: “Ainda não era sua hora.”