Conto de ficção · Demônios
Rafael encontrou o contrato dentro do rádio que tentava consertar. Uma folha limpa, sem data. No alto, uma promessa: a voz que você perdeu voltará a falar.
Fazia oito meses que a irmã morrera. Ele assinou.
À meia-noite, o rádio chamou seu nome. Era a voz dela. Contou detalhes da infância, reclamou do frio e pediu que deixasse uma cadeira vazia à mesa. Rafael obedeceu.
Na noite seguinte, a cadeira estava molhada. Na outra, o encosto tinha marcas de unhas.
‘Preciso entrar’, disse a voz.
Rafael procurou o contrato. Abaixo da assinatura, novas linhas surgiam no papel. Cada conversa cedia alguma coisa: primeiro uma lembrança, depois uma noite de sono. A última cláusula só apareceria quando o convidado recebesse um nome.
‘Diga que sou sua irmã’, pediu o rádio.
Ele desligou o aparelho. A voz continuou, agora debaixo da mesa.
Rafael olhou a cadeira vazia. Pela primeira vez, ela projetava uma sombra. A sombra tinha chifres.
No papel, a última linha se escreveu sozinha: o silêncio também será considerado resposta.
